terça-feira, novembro 28, 2006

Happy Hour

Três amigos se encontram em um bar de São Paulo, para um happy hour, acompanharemos agora a transcrição de tal evento comum nos finais de expediente.
- Opa, beleza.
- Fala véio.
- Desculpa o atraso, já pediram?
- Já.
- Beleza, garçom, mais um chopp.
- Como tão as coisas?
- Tudo ótimo, ainda mais com meu time campeão, hehehe.
- Campeão, porque deu sorte.
- Sorte? Sorte o que, campeão porque foi o melhor.
- Sorte sim, tem sorte de não ter uma diretoria igual ao do meu Verdão.
- Hahahaha, cês vão virar uma Portuguesa desse jeito.
- Opa, opa, pó para com isso, mais respeito com a Lusinha.
- Hahahahahaha!
- Falando em futebol, vão jogar esse fim de semana?
- Não vai dar, vou viajar.
- Também tô fora, o joelho tá podre. E você?
- Não sei, tô com uma preguiça do cacete ultimamente.
- Garçom, mais uma rodada e uma porção de pastel.
- Chegou quem tava faltando.
- Fala pessoal, beleza.
- E a sua garota, não ia vir junto?
- Ia, mas eu acabei terminando com ela.
- Como assim terminou? Vocês não iam casar, porra.
- Íamos, só que eu descobri um negócio e aí terminei.
- Já sei, descobriu que era corno.
- Ou que ela é home. hahahaha
- Antes fosse.
- Hã?
- Só vou falar porque vocês são meus irmãos, descobri que sou gay.
- Hã?
- Como é?
- Pfuuuuu, Garçom, trás outro chopp.
- E uma toalha.
- Mas, repete isso, você é gay, é isso?
- É, é isso.
- Mas desde quando?
- Acho que desde sempre.
- Como desde sempre, você sempre foi o cara mais galinha que eu conheci, não podia ver um rabo de saia.
- Verdade, porra você traçou a Daniela, a Rosana, a Nádia, só as minas gatas da sala.
- Além da Ana Paula que não dava bola pra ninguém.
- Ana Paula?, dessa eu não lembro.
- A filha da professora de bioquímica.
- A ruiva, que tinha uns peitões?
- Essa.
- Caralho, eu não acredito, tudo que eu consegui com ela foi tomar um suco.
- Eu só consegui um tapa.
- Também, foi logo passando a mão na bunda dela e na frente da mãe ainda.
- É verdade, hahahaha.
- Epa, voltando ao assunto, como é que depois de pegar essas mulheres você descobre que é gay.
- Descobrindo, mas vocês esqueceram de uma.
- Uma? Qual?
- A mãe da Ana Paula.
- Opa, peraí, a Professora Luciana?
- É.
- Ah, não, pará, e você quer que a gente acredite que da noite pro dia você virou viado.
- Sem essa.
- Não foi da noite pro dia, na verdade eu galinhava porque achava a mulherada meio chata, aquilo não me preenchia, ficava sempre faltando alguma coisa, aí faz uns 2 meses, mais ou menos, que um cara do serviço me cantou.
- No serviço?
- É, ele me convidou pra sair, achei que fosse de amizade, aí na hora de despedir, ele me deu um beijo e eu fiquei parado lá, depois percebi que era o que tava faltando, eu sou gay e não sabia.
- Garçom, mais uma rodada.
- Cara, não acredito.
- Você tá zuando a gente, né.
- Se falar depois que é pegadinha do Mallandro, te sento a mão.
- Não, caralho, é sério.
- Não sei o que dizer.
- E a sua namorada?
- Então eu contei pra ela hoje, ela ficou daquele jeito, fez escândalo, mas eu não podia mais levar pra frente o relacionamento.
- Claro que ela ia fazer escândalo, da última vez que vi vocês tavam falando de casar.
- Bem, cê me passa o telefone dela. hehehe
- Oh, seu doido, quer pensar com a cabeça de cima, pra variar.
- Meu, só tô sendo solidário, ela tá precisando de um ombro amigo, só isso.
- Sei, sei.
- Cês querem parar de zuar!
- Desculpa.
- Bem é isso, resolvi contar porque a gente se conhece a mais de 20 anos e como eu disse vocês são meus irmãos, minha família.
- Meu, eu tô espantado ainda, mas por mim, beleza, sem problemas.
- Por mim também sem problema, afinal você ainda é você.
- É, tudo bem, desde que você não queira me canta, tá tudo bem. Hahahahahahaha. Tô brincando.
- Hahahahaha, palhaço, mas sabe que você até é gostosinho.hahahahaha
- Pode pará, pode pará.
- Hahahahahahahaha!
- Garçom, mais uma rodada e outra porção.
- Bem, podia ser pior.
- Hum?
- Você podia ter dito que tinha virado político. Hahahahaha.
- Ou corinthiano.
- Hahahahahahahahahaha!

segunda-feira, novembro 27, 2006

Faith III - Sangue e Lágrimas

- Faith? Por quê? – A surpresa, superava a dor que a flecha em meu corpo provocara, esquecendo de meu inimigo, me virei em direção à mulher que amava e mal dei dois passos em sua direção quando uma nova flecha me atingiu, dessa vez no joelho direito, me levando ao solo. Não conseguia encontrar respostas, meu peito doía, mas não era culpa dos ferimentos e sim da dor que as ações de meu amor causava.

Com a voz contendo uma mistura de dor e espanto repeti a pergunta; - Por quê? Por quê?
- Assassino desgraçado você realmente não sabe? – A voz de Faith saiu entre os dentes, cheia de ódio e rancor. – Tem coragem de dizer isso depois de assassinar minha mãe e meu pai.
- Nosso pai, irmãzinha, nosso. – Era a voz de MacCullogh, que já se levantara e se esgueirou próximo a arqueira. Ante a incredulidade que minha face provavelmente demonstrara o miserável gargalhava e dizia:

- Sim, Knight, eu e ela somos irmãos, filhos do mesmo homem que você traiu e matou.
- Impossível!

- Sim, Ian, eu sou irmã, na verdade meia-irmã de Michael, minha mãe era uma cigana que morava em um acampamento próximo ao castelo MacCullogh, o mesmo acampamento que você destruiu e massacrou os moradores poucas horas depois de matar nosso pai no castelo, o mesmo massacre do qual só escapei por sorte e pela rápida intervenção de Wanda que me tirou do local quando a chacina começou.
Afinal, eu compreendia tudo, a ordem dada por meu ex-senhor, para que eu destruísse o acampamento e matasse um bebê em especial, a mesma ordem que me levou a desobediência, ao confronto e finalmente a matar o rei a quem antes jurei lealdade, mas de onde Faith tirara a idéia de que eu tinha feito isso? Foi quando meus olhos se encontraram com os de Michael MacCullogh, que atrás de Faith sorria malignamente, e percebi que tudo tinha sido um plano dele.

- Se, meu irmão não tivesse me encontrado anos depois, me contado tudo, cuidado de mim e me ajudado a planejar, eu nunca teria a chance de me vingar do homem que só trouxe dor e tristeza a minha vida.
- Meu amor, me escute, o que seu irmão lhe contou é mentira, sim eu matei seu pai, mas foi porque desobedeci as suas ordens para destruir o acampamento e matar você.

- Mana, não dê ouvidos a ele, está tentando ludibriá-la, engana-la, como fez com nosso pai, vamos, termine aqui com a vida desse bastardo, vingue nosso pai, sua mãe e todos que ele matou.
Puxando a corda de seu arco, Faith mirava meu coração, eu não tinha mais forças para tentar fugir, com muito custo me coloquei de pé, pronto a aceitar meu destino, apesar de tudo, a culpa era minha, se não pela mãe dela, por muitas outras mães, filhas, filhos, maridos, esposas e pais que matei durante os meus anos de fúria, porém, para a minha surpresa, ela lentamente abaixou o arco e com lágrimas nos olhos disse:

- Eu não posso, não posso matar o homem que amo, aquele a quem entreguei meu coração e recebi outro em troca.
- Sabia que não devia confiar numa cadela, uma bastarda, feita você. Ninguém da sua laia é confiável, por isso, atendi o último pedido de meu pai e acabei com aquela corja, devia ter te matado lá.

Com essas palavras ainda no ar, Michael trespassou sua espada pelas costas de Faith, eu não podia acreditar, eu não queria acreditar que vi a mulher que amava ser morta na minha frente, tomado pela dor e pela fúria que me cegavam, avancei em direção ao carrasco de meu amor, os ciganos que não presenciaram a cena foram insuflados pelas palavras de MacCullogh, que dizia ser eu o assassino de Faith, e se interpunham entre eu e aquele desgraçado.
Porém, meu estado de ira era tamanho que nada enxergava, a não ser MacCullogh, nada queria a não ser sua cabeça, nada podia ficar em meu caminho e quem tentava era rapidamente removido pela lâmina de minha espada, em poucas passadas alcancei Michael e nossas espadas se encontraram uma, duas, três vezes, na quarta a minha encontrou seu punho e no quinto golpe minha lâmina separou sua cabeça do corpo como se fosse a rolha de uma garrafa e mesmo assim o cretino sorria.

Deixei a espada cair de minhas mãos, olhava em volta a procura do corpo de Faith e então percebi porque o sorriso, finalmente eu havia cumprido as ordens de seu pai e em minha sanha assassina, buscando vingança, eu massacrara um acampamento cigano. Não tinha mais forças para ficar em pé, ainda procurava por Faith quando meus joelhos dobraram, cai sentado sobre os calcanhares a poucos centímetros dela, puxei-a para perto sua cabeça em minhas pernas e pedi perdão por meu passado ser o responsável por tudo aquilo.
Em seu último suspiro Faith disse:

- Ian, meu amor, eu que peço perdão, por ter envolvido-o nisso, eu sabia de toda a verdade, mas nunca teria coragem de matar meu irmão ou de pedir a você que o fizesse, perdão Ian, perdão.
- Faith... – Ela tinha partido, em breve eu também iria, foi nesse momento que uma velha se aproximou dizendo palavras que eu não entendia, sua expressão era dura, ela colocou uma das mãos sobre o rosto de minha esposa e a outra sobre o meu.

- Não se iluda cavaleiro, a morte é uma benção que você não merece, meu nome é Wanda sou a última deste clã e é meu dever promover nossa vingança, você Ian Knight, será amaldiçoado a nunca encontrar Faith, neste ou no outro mundo, até que seja perdoado pelos inocentes que matou.

E assim tem sido nesses últimos seiscentos anos, dia após dia, buscando a redenção, viajando o mundo encontrando as encarnações posteriores de minhas vítimas, ajudando-as e pedindo o seu perdão, em alguns dias isso é uma coisa fácil, mas em outros não sei se posso perdoar a mim mesmo, nessas horas eu me lembro de que ainda vou encontrar Faith.

FIM.
(Peço desculpas aos leitores pela demora em terminar esse texto)