quarta-feira, junho 10, 2015

Nossa música

Prefácio:
Como a vida, o tempo e nossa mente são estranhos, ou talvez seja só a minha mente avariada pelo excesso de açúcar e quadrinhos, mas às vezes nos pegamos a escrever algo que depois esquecemos o por quê foi escrito, o que inspirou, de onde aquelas palavras saíram, quase como se fizéssemos uma psicografia de nós mesmos e foi isso que aconteceu com o texto abaixo, não me lembro porque escrevi, não lembro qual foi a música que inspirou, mas faz um mês que ele voltou a ter sentido, um misero mês que pode parecer pouco ou muito dependendo da perspectiva, pra mim esse mês foi curto e longo ao mesmo tempo, mas graças a uma música ele foi extremamente feliz e tenho certeza continuará sendo por muitos meses.


NOSSA MÚSICA
Um rock pesado toca no rádio
Meu coração acompanha a batida
As palavras entram na minha cabeça,
Mas mesmo assim só consigo pensar em você.
Um solo de guitarra começa
Eu levanto da cadeira e aumento o som
Alguém grita, ignoro, só me interessa a música
A música e o seu corpo alteram a minha mente.
Sinto o gosto da sua boca
Meu coração dispara!
Não, é apenas a bateria que acelera o ritmo
Sou impulsionado a ir a seu encontro,
Mas ainda não sei as palavras certas.
O ritmo aumenta e você aparece
Passo as mãos em volta do seu corpo
Você me enlaça, seus olhos brilham
Seu corpo contra o meu, calor, suor, desejo
Tudo misturado com a melodia forte e incessante.
Eu já não aguento só te abraçar
Dou lhe um beijo, você se espanta e olha, espero o tapa
Ganho um sorriso, outro beijo
Um laço mais forte, aperto mais seu corpo contra o meu
A noite esfria, nós não
Os outros descansam, nós nos agitamos
Eles dormem e sonham, nós realizamos
A música acaba, nós começamos a nossa.
Rodrigo Vellozo Romera
18/10/04




A música, que religou esse texto antigo e perdido dos meus arquivos à minha vida novamente, você pode curtir abaixo:


sábado, março 28, 2015

Tô Perdido

Tô perdido, sem destino ou paradeiro.
Tô perdido, olhando pro nada e escutando o silêncio.
Tô perdido, esperando seu beijo que não vem.
Tô perdido, procurando palavras pra lhe dizer.

Tô perdido, desde o dia em que lhe vi.
Tô perdido, sem saber o que fazer.
Tô perdido, sonhando acordado sem perceber.
Tô perdido, tentando aprender a te esquecer.
Tô perdido, porque essa é uma matéria que já vi que não vou aprender.

Tô perdido, cada vez que você sorri.
Tô perdido, neste texto que não terminar.
Tô perdido, no momento em que você o ler.
Tô perdido, já que você vai perceber,
Que eu tô muito perdido gostando assim de você.

Rodrigo Vellozo Romera
17/03/15

terça-feira, fevereiro 10, 2015

Tarde Vazia


A mesa limpa de documentos, o ar condicionado congelando até a alma, pela janela podia se ver a cidade toda, o trabalho não importava naquela tarde, ele olhava pela janela seus olhos perscrutando o horizonte, nada parecia acontecer, na verdade sentia que nada mais importava.


" O telefone tocou, na mente fantasia..."


- Oi, tudo bem?

- Oi, tudo e com você?

- Tb. O que está fazendo?

- Nada, estava olhando a vista.

- Hum, é bonita?

- Não sei.

- Como assim não sabe?

- Não parei pra pensar se era bonita, só estava olhando pro horizonte.

- Ah, mas e olhando agora?


"Na rua os carros, no céu o sol e a chuva..."


- Me parece normal.

- Normal?

- É, nem bonita, nem feia, acho que já me acostumei com ela, é indiferente. Mas e você o que está fazendo?

- Falando com você. :P

- Isso eu sei, além disso palhaça.

- Hahaha, tô trabalhando.

- Pouco serviço já que tá me chamando no whatsapp.

- Pelo contrário, tô atolada de serviço e prazos.

- Mesmo? Então tá precisando de algo e por isso chamou?

- Não.

- Não?

- Não.

- E se tá atolada de serviço e não quer ajuda porque me chamou?

- Deu saudade, queria saber como vc está. :D


"E me valeu o dia. Valeu o dia, valeu o dia..."


- Só isso mesmo?

- Sim. ;)

- : D : D

- ^-^

- Vc é doida.

- Eu não era palhaça.rsrsrs

- Tb. hahahaha


"Podia ter muitas garotas, mas você é diferente..."


- Obrigado.

- Pelo quê?

- Por me ligar, por estar na minha vida, por me fazer sorrir nessa tarde.

- De nada, vc faz o mesmo por mim. :)

- :) agora vai lá terminar seu serviço, senão vc não sai na hora.

- Tô indo. Beijos, até de noite.

- Beijos, até.


"Você me ligou naquela tarde vazia..."


Guardou o celular no bolso, olhou novamente para o horizonte, depois a rua lá embaixo, limpou a lágrima que insistiu em brotar, desceu da cadeira, fechou a janela e suspirou fundo com um misto de alívio e alegria, pois lembrara o que era importante.


"E me valeu o dia. Valeu o dia, valeu o dia..."



(ao som de Tarde Vazia - Ira!)


quarta-feira, janeiro 28, 2015

You've Got Mail

Antônio olhava pela janela do escritório, mas o que seus olhos viam não era a cidade enorme lá embaixo e sim o mar distante e o sorriso da garota que tinha conhecido, sobre sua mesa pilhas de papéis esperavam sua análise, porém ele não estava ali, ou melhor, seu corpo físico estava, mas sua mente e coração estavam a quilômetros de distância, para a sua percepção seus pés tocavam a areia molhada, o ar era fresco e agradável e não aquele gelo seco do ar-condicionado, sentou a frente do computador, tamborilou os dedos no teclado, levantou para tomar água, retornou, folheou os papéis, novamente tamborilou os dedos no teclado, estava em dúvida sobre o que fazer, pegou o celular, mas no meio do caminho desistiu de ligar.

Voltou a olhar pela janela, pensava no que fazer, certamente não trabalharia direito hoje, retornou ao computador, ficou parado olhando a tela, os dedos da mão entrelaçados enquanto pensava no que escrever, abriu seu e-mail, digitou o endereço da destinatária, no assunto digitou simplesmente "Oi" e começou a escrever:

     " Oi, 

     Como você está? Vou ser sincero, estou escrevendo esse e-mail porquê não consigo parar de pensar em você, cheguei a pegar o telefone pra te ligar, mas engasguei no caminho, as palavras fogem da minha mente, mesmo agora digitando esse texto não acho as palavras certas, tudo que consigo pensar é no seu sorriso enorme como um sol iluminando meu dia, nos seus olhos que ficam variando entre o castanho e o mel, no seu perfume enquanto caminhava do meu lado, fico aqui olhando pra essa tela de computador, tentando encontrar uma forma de transmitir o que penso e o que sinto, mas não consigo.

     Acabei percebendo que as palavras que conheço são poucas e repetitivas pra fazer o que eu quero, talvez o melhor modo de me expressar seja te abraçar como se não houvesse um amanhã da próxima vez que te ver, porque assim quem sabe meu coração perto do seu consiga falar o que minha boca e minhas mãos não conseguem dizer.

     Beijos, Antônio."

Terminado o e-mail, Antônio deu um suspiro, entrelaçou os dedos da mão e com os polegares abaixo do queixo sustentava sua cabeça enquanto lia e relia o que estava escrito, tentava vencer a indecisão, deslizava o mouse entre enviar e excluir.

Completamente só em sua sala, cercado por um silêncio absoluto, Antônio passou diversos minutos nessa dúvida, até que durante um dos inúmeros vai-e-vens do ponteiro do mouse o telefone tocou alto e com o susto, ele clicou na opção sem perceber.

Estava feito, irremediavelmente feito.

Ah, você quer saber em qual botão ele clicou? E também quem é a garota? 

Não sei, ele não me disse, mas quem sabe, talvez se você olhar na sua caixa de entrada não descubra a resposta.


quarta-feira, outubro 29, 2014

Plano B (Conto de Halloween)


Tarde da noite, em uma rua escura qualquer, de uma cidade grande qualquer:

- Oi!

- Oi, você veio!?

- Você sabe que eu sempre venho quando me chama.

- É, obrigada.

- Não tem o que agradecer, entra no carro, te levo pra casa e você me conta direito o que houve.

- Ok. - ela entra no carro, o cumprimenta com um beijo na bochecha, os lábios dela estão gelados por causa do frio.

- Faz quanto tempo que você está aí parada no frio?

- Umas 3 horas, eu acho.

- Por quê não me ligou antes pô?

- Eu achei que ele ia voltar. - Sua voz sai trêmula, talvez pelo frio, talvez pela tristeza ou pela raiva de ter que ficar no frio e no escuro numa rua deserta.

- O que aconteceu dessa vez?

- O de sempre...

- Ciúmes.

- É, ciúmes.

- Você não aprende mesmo.

- Não fiz nada, ele surtou porque achou que eu estava dando mole pra um cara, eu só tava dançando, nem tinha visto o sujeito.

- Não tinha visto, sei.

- Tá, tinha visto, mas não fiz nada demais, só percebi que ele me olhava.]

- Hã-ram e aí?

- Bem e aí que o Artur viu o cara me olhando e surtou, disse que ia embora e ia me largar lá. Eu fui atrás dele, disse que não tinha nada demais ali, que ele tava criando caso a toa, e saímos de lá discutindo.

- E o que mais, onde ele tá?

- Não sei, entramos no carro, ele continuava brigando, dizendo que eu não respeitava ele, que ele era sério, que o namoro era sério, sei lá de onde ele tirou que era namoro..., que não era palhaço e nem ia ser feito de trouxa por uma sem vergonha e vagabunda feito eu, aí quando ele me chamou disso sentei a mão na cara dele.

Um riso engasgado. - Desculpa, continua.

- Aí fudeu, ele ficou puto, parou o carro e me mandou descer. Disse que não ia descer, ele deu a volta no carro, me puxou pra fora e me jogou na calçada, disse que ali era lugar de piranha que fica flertando com tudo que é homem, taquei o sapato nele só que errei, droga estraguei o salto, ele entrou no carro e saiu.

- Filho da puta! E mesmo assim você achou que ele ia voltar.

- Achei.

- Tsc, tsc.

- Ah meu, eu só arranjo B.O., nem tava fazendo nada de errado dessa vez.

- Dessa vez, né. rsrsrs

- É, rs, mas também não sei de onde ele tirou que é namoro.

- Quanto tempo vocês tão saindo?

- Uns 2 ou 3 meses mais ou menos.

- Sempre?

- A gente se vê quase todo fim de semana.

- É namoro.

- Não é, não quero namorar, não quero nada sério.

- Pra ele é namoro, pra maioria das pessoas se ver quase todo fim de semana por mais de 2 meses é namoro, pra um sujeito ciumento então é compromisso eterno.

- Ai, não.

- Ai, sim.

- Que merda, porque sempre comigo isso?

- Porque você é especial, já te disse isso. Você é linda, independente, inteligente, boa companhia, tem essa carinha de "por favor tomem conta de mim" e esses olhar que derrete o cérebro da gente.

- Ah tá, tenho tudo isso, só que não né.

- Você nunca me leva a sério, tô falando sério, não esquenta com isso, você ainda vai encontrar alguém pra te fazer feliz.(Ou já encontrou e não percebeu.)

- Ah, não, desisto, vou ficar sozinha que é melhor, menos complicação, não sirvo pra essa história de relacionamento.

-...

Depois de 40 minutos o percurso termina:

- Chegamos!

- Obrigada, só você pra me tirar dessas encrencas, olha a hora quase 4 da manhã, tô abusando.

- Sem problema, você pode, sabe disso. Não consigo te dizer não.

Um sorriso, outro beijo na bochecha, uma despedida:

- Se cuida, precisando de algo liga.

- Pode deixar, vai com cuidado.

- Ok.

10 minutos depois:

- Você sabe que é o Plano b dela, né?

- Sei.


"...I'm not in loveSo don't forget it
It's just a silly phase I'm going through..."

- Sabe que ela só te mantêm por perto pra não correr o risco de ficar sozinha.

- Eu sei.

- Hahaha, viado, ela sabe que você é louco por ela e vai te manter por perto como um cachorrinho.

- Você tá muito folgado, pra quem tá amarrado e até 5 minutos atrás tava chorando amordaçado no meu porta malas.

- É pode ser, mas mesmo assim você sabe que vai ser sempre o Plano B dela, você nunca vai ser o A, nunca vai ser o principal, nunca o namorado, pra sempre o bom amigo, você sabe né seu corno?

- É e daí?

- Como e daí, você não tem orgulho, amor próprio?

"...Ooh, you'll wait a long time for meOoh, you'll wait a long time..."

- Tenho, mas isso não tem nada com a história.

- Claro que tem.

- Não tem, você precisa entender uma coisa, o que aconteceu e o que vai acontecer não tem relação comigo, eu só quero que ela seja feliz, não me importo em ser o Plano B, ou C, ou Z, eu vivo dentro de uma nuvem escura a maior parte do tempo, mas quando ela está perto é como se eu vivesse na luz, o sorriso dela ilumina minha escuridão e quando tipos como você a magoam, a machucam o sorriso vai embora, a luz vai embora, pra mim não tem problema, me acostumei as trevas, mas não vou deixar ninguém leva-la pra lá, seja por capricho, por egoísmo ou orgulho besta.

- Você não pode fazer isso comigo, as pessoas vão descobrir, vão atrás de você.

- E porque iriam? Nunca te vi até hoje, aliás eu nem saberia quem você era se não tivesse partido pra cima de mim quando me viu saindo da casa dela, nem foto sua vi.

- Seu maluco, filho da puta e o que você tinha ido fazer lá?

- Fui levar uma flor pra mãe dela, é aniversário dela, você não sabia? e ainda diz que tava namorando, tsc, tsc. Pro seu azar ela me ligou, tava chorando e brava, disse que você tinha largado ela no meio do nada, pediu pra ir buscá-la, você partiu pra cima de mim bem na hora que desliguei.

- Maldito, tinha visto foto sua no Face com ela, pra mim vocês tinha algo e ela dizia: - "Não, o Gabriel é só um amigo, nada a ver." Mas eu sabia, sabia que tinha algo, aí te vejo saindo da casa dela, bem logo depois de eu ter brigado e largado ela por aí, tive certeza que você já tinha a pegado e estavam de sacanagem na casa.

"...I'm not in loveSo don't forget it..."

- Engano seu, aliás por quê você estava lá, não largou ela lá no meio do nada?

- Fui até lá ver se ela tinha aparecido, ia me fazer de arrependido, mas queria descobrir se ela tinha voltado, como e com quem.

- Hum, entendi, deu azar.

O carro sai da estrada, entra numa trilha fechada, árvores altas, apenas o farol do carro iluminando parcamente o caminho.

- O-o-onde estamos?

- Na parada final.

- Hã?

"...(Be quiet...big boys don't cry...)..."

- Na sua parada final.

- Não, não por favor, não!

- Sim, sinto muito.

- Nãooo, chuinf.

- Não se preocupe, não vai doer, muito.

- Por favor, não, eu me desculpo, eu sumo, não.

- Meio tarde e você não é de confiança.

- Por favor, não, espere me responda, por que essa música em looping o caminho todo e aqui também?

- Sabe aquela expressão: "Uma mentira contada muitas vezes se torna verdade."? Estou tentando me convencer que é verdade.

O brilho dos faróis refletem no instrumento em sua mão, a lâmina desce rapidamente, um jorro vermelho e quente inunda o solo, um corpo cai sem vida, um pensamento se repetindo: "Apenas o Plano B, bem e qual problema nisso.", ao longe um uivo e pela mata apenas a canção:


"...I'm not in love
So don't forget it

It's just a silly phase. I'm going through

And just because I call you up
Don't get me wrong
Don't think you've got it made
I'm not in love
No, no..."

segunda-feira, outubro 27, 2014

Um homem sábio ou um tolo apaixonado?


           O olhar perdido dentro do copo meio vazio ou seria meio cheio de uísque, a mente se esvaindo em pensamentos, não me permitem reparar na chuva que caía, até que um relâmpago ilumina a janela, olho pro copo, sorvo mais um gole, lá fora está tudo escuro, procuro um relógio e ele marca 3 da manhã, não tenho sono.

            O copo finalmente esvazia, a mente não, pego a garrafa pra mais uma dose, sentado no escuro, com o copo nas mãos fico a olhar seu conteúdo tentando ver o fundo, o vento assovia, além dele só o farfalhar das folhas das árvores e os pingos da chuva contra o vidro são audíveis, pelo menos pra quem está fora da minha mente, lá dentro as pequenas células cinzentas fervem, gritam, me impedem de dormir.

         Mais uma dose, ainda não acho resposta pro que aconteceu, como não percebi o que vinha pela frente, como deixei acontecer depois de tanto me precaver, penso que já fui mais esperto, ouço alguém dizer: "...só os tolos se entregam...", acho que sou um tolo mesmo.

          Eu estava certo que tinha solucionado tudo, fico voltando no tempo, tentando ver onde começou; semana passada, mês passado, ano passado? Quando deixei escapar do meu controle? Foi aos poucos ou foi de supetão e por isso essa sensação estranha? Alguém mais percebeu o que estava acontecendo? Não sei, não encontro as respostas, o copo esvazia, a boca seca, mais uma dose.

        Por quê agora? Por quê não antes? O que mudou? Perguntas, perguntas e mais perguntas, as respostas parecem perdidas na escuridão dessa madrugada, penso como seria bom que a chuva lavasse tudo, inclusive meus questionamentos, minhas dúvidas, incertezas e especialmente meu medo.

             Medo da encrenca em que você me meteu, sim! Estou velho, cansado demais pra apanhar de novo, deixar que você me leve a cometer os mesmos erros de novo, mas incapaz de lhe dizer não, sempre assim o que você pede eu atendo, não importa que eu saiba que vou me estrepar mais uma vez. Ah maldito coração mole, como não percebeu que estava sendo rendido de novo, como não percebeu que estava se apaixonando?

            Apavorado no escuro da sala, buscando coragem no fundo do copo, me parece meio tarde pra isso velho amigo, só resta ouvir as palavras do Rei e acreditar que "...algumas coisas estão destinadas a acontecer...". Quem sabe dessa vez, quem sabe?

           Recosto na cadeira, o copo vazio na mão, fecho os olhos, não ouço mais a chuva, apenas o rádio: "...Take my hand, take my whole life too. For I can't help falling in love with you..."



(Ao som de Can't Help Falling In Love, Elvis Presley)

domingo, janeiro 20, 2013

Flor de Lótus

Era só mais uma noite comum de verão, sem lua, apenas poucas estrelas apareciam, ele chegou em casa, pegou a garrafa de saquê, encheu um copo, sentou no banco do jardim, tomou um gole e olhou para o céu. Respirou fundo, tomou mais um gole, começou a garoar fraco, uma chuva que refrescava o calor sufocante da noite até que ele olhou para a orquídea que estava a sua frente, as gotas deslizavam pela flor fazendo um desenho que ele já tinha visto, mas não em um orquídea, muito menos em um jardim, ele tinha visto aquele desenho das gotas serem feitos em uma flor de lótus que era ela própria um desenho nas costas de uma garota.

A cada segundo a orquídea se tornava mais, a seus olhos, a lótus desenhada nas costas daquela garota linda que ele tinha conhecido a pouco tempo, lembrava dos olhos castanhos brilhantes, do sorriso jovial e da voz doce, estava definitivamente encantado por ela, tinham se encontrado sem querer tentando se proteger de um temporal que assolou a cidade embaixo de uma pequena marquise, os dois mal cabiam ali, era impossível seus corpos não se tocarem, não sentir o perfume dela, não sabia se era natural do corpo dela ou o que ela usava, afinal do jeito que estavam molhado impossível dizer se qualquer perfume industrial resistiria, mas era irresistível o aroma que ele não conseguia explicar.

Os dois ficaram presos naquele abrigo por um bom par de horas, acabaram conversando, tinham alguns gostos em comum, muitos diferentes, mas mesmo assim ele não conseguia tirar os olhos dos olhos dela, nem da boca, devorava cada palavra que ela dizia com prazer, o espaço exíguo e a chuva que apertava cada vez mais aproximava seus corpos, os dois compartilhando o mesmo calor que espantava o frio causado pelo quão estavam encharcados.

O temporal arrefeceu e eles continuaram ali ainda juntos, conversando, se olhando, ela disse onde trabalhava e ele também, era próximo, ele propôs um almoço, ela disse:"vamos ver", ele ainda a acompanhou até o ponto de ônibus e se despediram. 

Passaram os dias, se falaram poucas vezes e foram almoçar naquela manhã, ele ainda continuava fascinado por ela, conversaram, riram, ele disse o quanto ela era bonita, uma beleza rara, na opinião dele, a mulher mais linda que ele vira nos últimos anos, saíram pra caminhar, suas mãos se tocaram, enquanto esperavam o sinal abrir no cruzamento ele a puxou para junto de si e a beijou com uma vontade única, uma das mãos em seus  cabelos castanhos a outra abraçando seu corpo, os braços dela envolvendo o dele, lábios e língua em total retribuição, o sinal abriu, fechou, abriu novamente e os dois lá atrapalhando o trânsito.

O ar acabou, o dia também, mas o beijo e a vontade dele por ela não, a cada beijo deles ele se apaixonava mais, a cada segundo com ela o dia parecia parar, o perfume dela se misturou ao cheiro da sua roupa, os dois andavam sem olhar para nada a não ser o outro, mas em certo momento ela disse as palavras que o levaram àquele ponto do dia, sentado no banco do jardim: "Eu  ainda gosto de outra pessoa, desculpa."

Ele olhou pra ela, não sabia o que dizer, foi pego totalmente de surpresa, envolveu-a com os braços, a beijou com, ao mesmo tempo, um gosto de adeus e de não vou desistir, ela subiu no ônibus e ele acompanhou com o olhar até que o perde-se de vista.

Agora sentado naquele jardim, com a chuva fraca sobre si ainda não entendia o que aconteceu, pensava se deveria ir atrás ou não, talvez devesse só beber até esquecê-la, sim, talvez fosse melhor, pelo menos naquela noite, pegou a garrafa de saquê disposto a esquecer, mas ao ler o rótulo percebeu: "É assim fica difícil esquecer". 

Deixou a garrafa do lado do banco, pegou as chaves e saiu, nela estava escrito "Flor de Lótus".