quinta-feira, abril 23, 2009

Coisas da vida

Gabriel aceitou o convite, iria passar uns dias em um sítio de parentes, curtiria assim umas merecidas férias do corrido dia-a-dia. Foi durante essas férias que conheceu Dalila, ela era amiga de seus primos, Gabriel e Dalila se deram bem logo de cara, na verdade tinham um senso de humor parecido, provocavam-se o tempo inteiro, porém sempre como uma forma de dar risada, foi assim que conviveram durante 15 dias, porém no meio da turma percebera que alguém os olhava diferente, era Saulo.

Saulo e Dalila eram noivos a algum tempo, e ele também era amigo dos primos e do próprio Gabriel, apesar de boa gente Saulo tinha o pavio curto, juntando a isso o fato de beber, ou melhor de absorver, como uma verdadeira esponja, era alguém que na maioria das vezes causava confusão e embaraços para si e para os outros. Sabendo disso Gabriel não mexia muito com ele, as reações do rapaz ninguém podia prever e era melhor evitar brigas, tendo isso em mente ficou com o pé atrás quando percebeu os olhares do outro quando Dalila vinha brincar com ele, espantou-se mais ainda quando numa conversa boba teve a impressão que a garota lhe dava uma atenção diferente com o passar dos dias, afastou aquele pensamento da cabeça, afinal eles já estavam noivos há muito tempo e o casamento marcado para dali dois meses.

Mas por mais que tentasse, Gabriel ficara com a sensação que Dalila estava lhe dando bola e isso piorou quando pegou uma conversa dela com outras moças de que estava farta do comportamento infantil de Saulo e que queria acabar com o noivado, será que era ele Gabriel o culpado por isso? Não, não devia ser isso, provavelmente escutara mal, bem as férias tinham acabado e iria voltar naquele dia mesmo para casa, nada demais poderia acontecer.

Só que de volta a rotina do trabalho Gabriel se pegou pensando em Dalila, no sorriso, no olhar, depois de muito tempo ele se apaixonara de novo, mas ainda não conseguia acreditar nisso, resolveu ligar para Dalila e convidou-a para sair, ela aceitou, foram ao cinema e depois ficaram conversando horas sobre a vida, ela contava que tinha dúvidas sobre o casamento, talvez já não amasse o noivo tanto quanto antes, mas queria dar uma chance a eles, escutando isso Gabriel se retraiu por um instante, foi quando ela pegou em sua mão e disse que gostaria que Saulo fosse tão bem humorado e bonzinho como ele, o coração do rapaz disparou tinha a sensação de ver sua camiseta subir e descer no ritmo das batidas, queria beija-la ali mesmo, mas como ela mesmo disse era bonzinho demais pra isso, acabou aconselhando-a e se despediram em poucos dias se veriam no casamento e ela fazia questão de sua presença.

Aqueles dias até o casamento foram angustiantes, tentava abafar o que sentia por Dalila de todas as formas possíveis, bebeu tudo que podia tentando afogar o sentimento, dormiu com uma garota linda do trabalho por quem ele sempre tivera uma queda, mas nada apagava aquele sorriso de sua mente. No dia do casamento pensou em não ir, mas o telefone tocou cedo e era ela dizendo que não o perdoaria se não aparecesse, na igreja quando o noivo veio cumprimentá-lo Gabriel sentiu o cheiro de bebida, mal começou o dia e o sujeito já tinha toma umas cervejas.

Com a chegada do padre no altar todos se posicionaram, inicia-se a marcha nupcial, a noiva, linda como uma pintura, começa sua entrada, no meio do caminho entre ela e o altar, instigado por uma força que não compreendia, Gabriel se postou, disse que estava apaixonado por ela, pede que Dalila pense se realmente valeria a pena passar a vida com alguém a quem ela não tinha mais certeza de amar, do altar Saulo ameaça se manifestar, porém Gabriel com um olhar ameaçador manda que ele cale a boca e fique quieto no lugar, talvez tenha sido o susto ou a bebida, mas o rapaz fica estático sem conseguir concatenar uma idéia, um movimento sequer, enquanto isso todos esperam a resposta da moça, ela olhando nos olhos daquele moço maluco e bem humorado que conheceu diz:

- Eu não posso fazer isso com ele, eu queria, mas não posso. - diz com lágrimas nos olhos.

Meio que esperando essa resposta Gabriel sorri, a pega entre os braços e a beija, um beijo longo, suave, depois a soltando, começa a caminhar para a porta, mas antes, se vira e diz:

- Afinal, eu não sou tão bonzinho assim. - Sorri e parte.





(Texto originalmente publicado no Além do óbvio e ululante que pulula mentes humanas)

terça-feira, abril 14, 2009

Uma Noite Diferente

"Maldita consciência", é tudo que consigo pensar agora, devia estar em casa secando as duas garrafas de vinho tinto, terminando aquela meia pizza que sobrou de segunda e depois apagar no sofá vendo um filme qualquer, ou seja o meu habitual de quartas a noite, mas não, eu tinha que inventar de comprar as malditas garrafas na padoca mais movimentada do bairro, ao invés de comprar dois Natal no armazém do Lucão. Também tinha que fugir da minha comum cara fechado e resmungos, pra parar e cumprimentar aquela ex-colega de ginásio, que eu não vejo há mais de 10 anos, tudo porque ela virou uma tremenda gostosa de cabelhos castanhos claros, olhos escuros, um par de peitos deliciosos e as coxas mais bem torneadas que já, nessas horas é que eu acho que devia ter sido capado, assim não tava aqui parado sob um temporal, molhado até os ossos, na frente da única casa da rua mais deserta e escura desta maldita cidade, até os fantasmas devem ter medo de vir aqui.

Por que eu não ignorei quando ela me chamou:

- Oi, não tá lembrado de mim não é?

- Hã, er... oi, desculpa mas não sei quem é você. - Tentando disfarçar que tava olhando mais pros peitos do que pra cara da guria.

- Pô, sou a Bia, a gente estudava junto.

- Ah, lembrei, mas você tá muito gos..., diferente, muito diferente do que eu lembrava.

- Você continua com a mesma cara. Como vão as coisas?

- Tudo bem e com você? - Putz, mesma cara, continuo com cara de babaca, então, grrrrrr.

- Mais ou menos, alguns problemas.

- Que pena, mas olha eu tenho que ir.

- Ah, tudo bem, eu já vou pegar o ônibus pra casa também, ainda moro no mesmo lugar, sabia.

- Caramba e o que você veio fazer aqui? - Caralho essa guria é louca, no bairro dela nem bandido anda de ônibus a noite.

- Eu tava na casa do meu namorado.

- E porque ele não te leva em casa, aquela sua rua é perigosa pra caralho.

Bia fazendo cara de choro: - É que a gente teve uma briga, ele me xingou, me colocou pra fora da casa dele. - Ah não agora essa anta vai começar a chorar aqui no meio da rua.

- Olha não fica assim não, eu vou com você até sua casa, a gente vai conversando e você esquece isso.

- Brigada, chuinf.

Foi aí que me fudi, achei que já tinha passado essa fase de dar uma de cavaleiro andante, pelo visto li gibis de heróis além da conta. A viagem foi tranquila, ela riu, esqueceu o pastel do namorado por um tempo, mas foi só a gente chegar na frente da casa dela e pronto desabou um temporal desgraçado, o babaca do namorado tinha ido até lá e esperava ela no portão, mais bêbado que um gambá, queria "conversar", pois essa conversa já durava mais de uma hora, ninguém dava, nem descia e não minha consciência filha da puta não queria deixar a Bia com aquele pinguço. Ela deu um tapa na cara dele, pronto acho que agora acabou a conversa, ela tá pegando a chave e ele ficou parado na calçada com cara de ué, vou poder voltar pra casa.

- Sua cadela, piranha, desgraçada, eu vou acabar com a tua raça e com a desse teu amante viadinho. - Pronto, virei um amante viadinho, tudo que eu queria era estar em casa, mas agora tinha virado amante, pior viadinho, se bem que se eu era amante dela como ia ser viadinho, e ainda molhado e ameaçado. Quando olhei pra trás, o pseudo corno já tava vindo com a garrafa que tava no carro, não deu tempo de nada, só senti o impacto do vidro, na boca o gosto do que tinha dentro da garrafa bebida da boa:

- Desperdício de boa bebida. - falei, minha cabeça latejava, o bebum, mal se aguentava em pé e mesmo assim avançou pra cima dela, garrafada na cabeça eu até aceito, agora bater em mulher que está comigo não, estiquei o pé, o desinfeliz explodiu o queixo na calçada, tem gente que diz que brigar com bêbado não vale a pena, eu já sou da opinião que se quer briga, não tô nem aí se o adversário tá bêbado, sóbrio, homem, mulher, criança ou velho, quer briga vai ter briga.

Ele tentava xingar, mas a dor na boca só permitia uns grunhidos, aquela bagunça, a chuva apertando, a cabeça latejando, só queria sair dali, me deitar, mas o desgraçado agarrou minha perna, tentava me derrubar, só senti um vento passando do meu lado, quando vi o dito cujo tava estatelado na calçada, um vergão vermelho atravessando a cara do meu outro lado Bia segurava o que tinha sobrado do rodo que ela espatifara na cara do ex.

- Seu,seu, babaca, filho da puta. - Ela não parava de xingar o cara, minha cabeça girava, sentei na guia, nem me importava mais com a chuva, quando ela me convidou para entrar e me secar, enquanto esperava minha roupa secar ela me ofereceu uma cerva e gelo pra cabeça, começamos a conversar sobre o ocorrido, outras cervas vieram, não paravamos de gargalhar, a cabeça não sei se girava pela pancada ou pela bebida.

Beatriz parecia mais linda ainda, seu perfume era delicioso e o calor do seu corpo sentado ali do meu lado me deixava louco, não resistindo a beijei, ela correspondeu apesar ou devido a nossa bebedeira, queríamos mais, ela se deitou sobre mim, de repente tudo foi ficando escuro, escuro.

Quinta-feira 9 da matina, acordo com gosto de cabo de guarda-chuva na boca e uma dor de cabeça infernal, o corpo moído, os olhos se acostumando com a claridade, quando desperto totalmente vejo Bia, dormimos abraçados no sofá, nenhum dos dois teve força pra nada, ela acorda olha pra minha cara, entende o que aconteceu, gargalhamos mais ainda, depois de comer alguma coisa vou embora, mas com volta marcada pra mais tarde.

Na rua, sentado do lado do carro o ex dela, não resisto, passo por ele, que parece não ter forças pra se levantar e digo:

- Agora tú tem motivo pra ficar puto, seu corno. - Desço a rua às gargalhadas, até que não foi uma noite tão ruim



(Texto originalmente publicado no Além do óbvio e ululante que pulula mentes humanas)

terça-feira, abril 07, 2009

O Apartamento 155

Há trinta anos existia e habitava o mesmo local no Edifício Morgana Le Fay, nunca se ouvira nada de estranho sobre ele, era silencioso, poucos o conheciam e diziam que era aprazível, porém tudo mudou quando Dona Mariusia veio lhe fazer companhia, a principio se deram muito bem, apesar da diferença de mais de trinta anos, a senhora era uma cozinheira de mão cheia e o local cheirava a biscoitos da primeira hora do dia até o anoitecer, ela contava história de sua mocidade e como gostava de bater papo à anciã.


Tudo corria as mil maravilhas, quando as maneiras, digamos excêntricas, da velhota começaram a surgir, primeiro foram os gatos, não um ou dois, mas dezenas deles, todos os bichanos achados na vizinhança ela acolhia, era uma sinfonia de miados sem hora para começar e terminar, os vizinhos já lhe dirigiam adjetivos pouco dignos, a situação piorou quando a limpeza se tornou precária, o cheiro dos biscoitos misturado aos de fezes e urina felinas, isso o embrulhava, tentou argumentar, recebeu ouvidos moucos, pior teve a porta destroçada pelas unhas dos animais, a parede mofada, pois dona Mariusia não tinha mandado consertar o vazamento, gastava todo o dinheiro em bingos e ração, não colocava o lixo pra fora e repetia insistentemente a cada meia hora a mesma história.


Sua paciência chegara ao limite, faria ela se mudar de qualquer maneira, planejou, passou noites em claro, decidiu que começaria a operação atacando onde mais doía, nos gatos, iria sumir com eles, isso talvez trouxesse a idosa a razão. O primeiro a sentir sua ira foi Leozinho, um gato rajado em ruivo e mel, a oportunidade surgiu em uma das idas ao bingo, o gato alvo tinha mania de subir no encosto do sofá e afiar as garras na parede junto a janela e ficar brincando com a cortina, em um momento de distração do bichano, uma janela aberta de sopetão, o sofá tremeu, Leozinho tentou se agarrar na cortina, sem êxito fora lançada junto com ele do 15º andar, nada mais a fazer a não ser miar a espera do impacto.


Dona Mariusia chegou tarde aquele dia, deu de cara com o zelador segurando sua cortina, o homem não encontrava formas gentis de contar o ocorrido, desembuchou de uma vez, as pernas da mulher bambearam, sentia tonteiras, justo Leozinho o seu preferido, que crueldade, subiu para sua casa, olhou para a janela, fechada, trancada na verdade, sentou-se no sofá e acariciava a cortina onde alguns fios ruivos se sobressaiam, não entendia como aquilo tinha acontecido, foi então que notara o silêncio, onde estavam seus outros filhos, sim era isso que eles eram para aquela antiga bibliotecária, chama daqui e nada, coloca a ração no pratinho nenhum deles aparece, ensimesmada e amedrontada pelos acontecimentos começa a busca, nem sinal dos felinos, bate nos vizinhos, talvez alguém saiba de algo - pensa. Enfim, a empregada do 156 viu uma debandada geral dos filhos de Dona Mariusia pela porta da área de serviço, disse que os coitados corriam como se tivessem visto o capeta em pessoa, rolavam a escadaria em desespero, tentando fugir seja lá do que for que estivesse lá dentro, quando ela tentou ver o que acontecia a porta foi batida na sua cara.


A senhora não podia acreditar todos tinham fugido, mas por que isso, como puderam abandoná-la assim sem motivos, afinal o que acontecera ali, entrou, os anos e o dia agitado lhe pesavam nas costas, dirigiu-se ao banheiro, precisava de uma ducha, estranhamente os azulejos mostravam uma certa condensação, a porta do box travada e embaçada, forçou a abertura, uma nuvem de vapor saiu e abriu espaço para uma cena horrível, três dos seus gatos ali mortos, escaldados, não suportou tentou gritar de medo e pavor, mas a garganta se fechara, fez um movimento rápido para sair, mas a porta se fechou, dona Mariusia assustou-se mais ainda, o chão escorregadio terminou tudo, desequilibrou-se, sua têmpora de encontro a borda do bidê e o sangue inundou e tingiu de vermelho os azulejos brancos. Por dentro ele se sentia leve, regozijava de felicidade e alívio por ter sua calma e liberdade novamente, podia-se ouvir até um riso preso.


Passaram-se alguns meses após a tragédia, ninguém no prédio falava mais sobre o assunto, às vezes um sussurro a sua porta, mas nada demais. Fazia poucos dias que tinha nova companhia, era Alberto, rapaz, estudante de direito de uma famosa universidade privada, tinha hábitos regrados, não fazia barulho, passava a maior parte do tempo no quarto estudando, trazia um ou outro amigo, mas era coisa rara, um jantar, estudos e iam embora sem problemas, viveram sem maiores entreveros durante 6 meses, o rapaz nada fazia que o desagrada-se, foi quando aconteceu o pior, Alberto levara ao mesmo tempo pau em Medicina Legal e um belo par de chifres da namorada, não conseguiu se segurar, mesmo com o apoio que ele lhe dera, o futuro advogado se entregara a bebida para esquecer, trocara de amigos, os novos lhe apresentaram um mundo mais cruel e desumano, baladas pesadas, drogas, Alberto afundara-se e transformara toda a sua vida em desordem, barracos etílicos, confusões com moradores, pichações em suas paredes, depredações gratuitas de janelas, pintou um alvo na porta do quarto e treinava arremesso de tudo que tivesse a mão.


A situação ficou insustentável, não suportava mais o cheiro de bebida, maconha e suor que impregnavam o ambiente, voltara a ser alvo de piadas e xingamentos nas reuniões do condomínio, era humilhado até pelo rapaz, apresentado como o lixo, a bosta, a inutilidade, não tinha mais jeito, com o garoto não haveria mais diálogos, lembrou-se de Mariusia, sim, faria a mesma coisa, só que dessa vez com mais energia, menos planejamento e não contaria tanto com a sorte, seria rápido e simples. E foi, na noite seguinte Alberto acordou tarde, escutou um barulho estranho na cozinha, a torneira jorrava, o chão alagado, estranhou, mas deu de ombros, enfiou o pé na água, sentiu um formigamento na perna que passou para o corpo todo, despencou se contorcendo e babando no chão inundado, ficou como última imagem na sua retina o fio descascado boiando e ligando a geladeira a tomada.



Foram dois anos de muita paz, tinha desistido da companhia de pessoas sós, e optou por um casal jovem, e que alegria, encontrara em Paco e Melissa grandes companheiros, gentis, prestativos, se sentia como novo, abria as portas, deixava o ambiente ventilado, se iluminara com a gravidez da jovem e estava radiante com a chegada do pequeno Diego, a primeira noite do bebê no novo quarto, todos dormiam, ele finalmente desfrutava de noites tranqüilas, quando o pequeno começa a chorar, esgoela-se na verdade, os pais de primeira viagem não acordam, ele tenta acalmar o gurizinho, nada, lembra-se de Mariusia e Alberto, ferve, vai resolver de vez a questão, bate a porta do quarto, o casal acorda assustado, tenta desesperadamente entrar, todos os esforços em vão, Diego chora sem dó, a lâmpada pisca num ritmo furioso, incessante, as paredes tremem, tingissem de rubor, a janela abre e fecha com voracidade, de repente silêncio, tudo se acalma, a porta destranca, lá dentro do quarto no berço, o garotinho sorri como se nada tivesse acontecido, os pais não sabem o que pensam, acham que era um sonho, por uma fresta na janela a brisa passa e proporciona a sensação de um assobio calmo, feliz, o bebê abre um riso maior ainda. “É até que esses humanos são engraçadinhos.” – conclui o apartamento 155 do Edifício Morgana Le Fay.



(Publicado originalmente no site Palavras de um Coração)

segunda-feira, abril 06, 2009

Desânimo ou Preguicite Crônica?

Como isso acontece sem a gente perceber, de uma hora para outra todo aquele seu gás, as suas idéias, tudo desaparece, você já acorda cansado, sem vontade de levantar da cama, aliás, se respirar não fosse automático você também ia pensar duas vezes antes de inspirar e expirar.

Meu Deus, cadê o meu pique que estava ainda aqui ontem, cadê aquela energia pra mudar as coisas, para ligar para os amigos e combinar uma saída, pra tocar a frente os projetos de sociedade numa clínica, até para escrever esse texto falta vontade.

É incrível a quantidade de atividades que tenho para fazer e não quero, sendo que nem todas são chatas, tem muita coisa que me diverte no meio desse mundaréu de planos e objetivos a serem realizados e alcançados, mas eu simplesmente não quero, não quero pensar, não quero me preocupar, não quero nem me mexer mais.

Não é culpa da segunda-feira, nem de nada que tenha acontecido de imediato, é simplesmente desânimo, vontade de sumir, fechar os olhos e acordar num canto isolado de uma praia, de ficar boiando dentro de uma piscina ignorando tudo ao redor, a correria, as decisões, as pessoas sem – caráter à volta, as dores físicas e emocionais, os corações partidos e os abandonados.

É um sentimento assustador de desilusão com as decisões e com os caminhos que escolhi, de uma total incompetência própria de buscar novas idéias e horizontes, de cansaço de ter que sempre abandonar os planos por algum motivo alheio, de perder a oportunidade por segurar meus instintos.

O mais estranho é que não sei se é desânimo por tudo isso que pensei ou se procuro desculpas para uma crise de preguiça crônica, vontade de não ter responsabilidade, de passar a tarde deitado vendo televisão e comendo bolacha, de andar pela rua e ver todos apressados com suas roupas de trabalho, enquanto eu fico tomando sorvete, de bermuda, sentado num muro qualquer.


(Publicado originalmente no site Palavras de um Coração)

Aviso!

Visando arrumar a bagunça dos meus arquivos e também deixar todos os meus textos em um lugar só, a partir de hoje, esse blog passará a republicar textos meus que foram originariamente postados em outros blogs perdidos pela internet, é por pouco tempo prometo, só até arrumar tudo.